Medalhista do skate já teve que morar numa cozinha alugada

Disposto a se desenvolver no esporte, Kelvin Hoefler foi morar nos Estados Unidos, mas, como tinha pouco dinheiro, alugou uma cozinha para viver

Foto: JONE RORIZ
Medalhista do skate já teve que morar numa cozinha alugada
Kelvin Hoefler, medalhista de prata

FERNANDO GAVINI / OLIMPÍADA TODO DIA

Na estreia do skate nos Jogos Olímpicos, o Brasil marcou presença no pódio. Kelvin Hoefler conquistou a medalha de bronze no street masculino. Depois de ficar na quarta colocação nas eliminatórias, o brasileiro foi muito bem na final, chegou a liderar nas primeiras rodadas e terminou com a medalha de prata. O primeiro campeão olímpico da modalidade foi o japonês Yuto Horigome, enquanto o americano Jagger Eaton ficou com o bronze.

Kelvin Hoefler começou muito bem a final e liderou as quatro primeiras rodadas, mas caiu em duas manobras seguidas, o que fez ele despencar para fora do pódio. No final, ele conseguiu um 9,34 que o alçou para a segunda colocação, mas que não foi capaz de fazê-lo ultrapassar Horigome. “Não fosse o vento, eu poderia ter ganhado o ouro. Infelizmente, errei duas manobras por conta disso”, lamentou.

Mas os motivos de comemoração são muito maiores. Kelvin, por exemplo, superou uma queda grave que teve em um dos primeiros treinos no Japão. “Eu ainda não estou acreditando na minha performance porque no primeiro dia ou no segundo dia de treinos eu tive uma lesão.

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A pista estava muito grande. Eu sou um skatista bem técnico e gosto de obstáculo alto só que aqui está muito grande. Então, eu acabei me lesionando, machuquei ombro, costela, mão… Mas não sei como eu consegui acertar minhas manobras. Acho que é o espírito brasileiro de garra, de perseverança e consegui dar o meu melhor”, afirmou o primeiro medalhista brasileiro na história do skate.

Durante a prova, além da força vinda das redes sociais, Kelvin Hoefler contou com a ajuda, por telefone, da esposa Ana Paula Negrão, que é sua fotógrafa há anos, e de Pamela Rosa, do street feminino, que virou sua conselheira durante a competição. “Liguei o tempo todo para a minha mulher (Ana Paula) durante a competição. Ela me incentiva muito, dá aquele empurrãozinho a mais. Já choramos juntos com essa medalha. Outra pessoa que me ajuda muito é a Pâmela Rosa, que sabe muito da técnica do skate”.

“A Pâmela Rosa foi muito importante. Ela foi meu braço direito, esquerdo, perna, tudo. Ela foi meu coach aqui. Ela falava ‘Kelvin bebe água, Kelvin fica na sombra, Kelvin troca tal manobra por essa. Sem ela isso não iria acontecer. Todo mundo vê o skate como esporte individual, porque a gente pega o skate e sai andando, fazendo o que quer, mas ela me ajudou muito hoje”, afirmou o skatista, que espera poder retribuir a ajuda no dia seguinte, quando será a vez de Pâmela competir.

NOS ESTADOS UNIDOS

Nascido no Guarujá, litoral de São Paulo, Kelvin Hoefler começou a andar de skate com nove anos. Aos 28, vive o maior momento da carreira depois de conquistar a medalha de prata no street nos Jogos Olímpicos de Tóquio. 

Com a medalha do peito, passa um filme pela cabeça. Os momentos de dificuldade e de superação são lembrados, inclusive quando teve que alugar uma cozinha para morar em Los Angeles quando foi tentar a sorte nos Estados Unidos para se desenvolver no esporte.

“Vim de uma cidade pequena, que não tinha a prática do esporte. Meu pai me levando pras pistas de skate no fim de semana… foi uma garra, sabe?”, conta Kelvin Hoefler, que para subir de nível no skate quis se mudar para Los Angeles para poder conhecer pistas melhores e mais desafiadoras do que as que ele estava acostumado. Mas faltava grana. Então, alugar uma cozinha foi o jeito que ele deu. Tudo isso aconteceu em 2014, quando ele tinha 21 anos.

O curioso é que a dona da cozinha era Ana Paula Negrão, hoje esposa de Kelvin Hoefler. “Eu aluguei a cozinha dela, aí depois ela foi para Roma e eu fiquei nos Estados Unidos e, depois, aconteceu…”, se diverte. “Ela é minha fotógrafa há muitos anos também”, releva o skatista, mas a parceria é muito maior, tanto que ele conversou com ela por telefone várias vezes ao longo a disputa deste domingo.

“Durante a competição, falei com ela o tempo todo porque ela é minha técnica, é meu braço, direto, esquerdo, perna… tudo! Ela que me ajuda sempre. Ela que me fala: ‘Kelvin, você é o melhor’. Ela é o empurrãozinho a mais. Eu acredito que sem ela eu não teria acertado”, acredita. “Estava muito vento e eu caí duas vezes. Tanto ela quando a Pâmela (Rosa, skatista) falaram: ‘tranca, manda outra manobra, passa a vela em outro lugar’. As duas me falaram isso. As duas são foda (risos)”.

Logo depois de conquistar a medalha de prata, Kelvin Hoefler conta que a primeira coisa que fez foi ligar para a Ana Paula. Quase não deu para conversar: “Choramos juntos”. Agora, com o primeiro pódio na estreia do esporte nos Jogos Olímpicos, o skatista sabe que vai ficar mais conhecido e que vai ser mais procurado pelas pessoas. Ainda assustado com a quantidade de entrevistas depois da medalha, ele garante: “Eu vou continuar sendo eu mesmo. Vou andar de skate amanhã, depois de amanhã. O skate é o mesmo. Pegar o skate, descer uma ladeira, sentir o vento. O skate é uma grande família! Queremos ver o show! Difícil descrever! Muitos anos de luta! Isso representa o skate brasileiro. Nossa garra, persistência! Isso não é só meu. É só o começo!”.